Crítica do (“Poeta e Produtor Cultural Carlos André de Diadema”), sobre o meu trabalho no livro Alguns Poemas.
Alguns Poemas, Luiz D Salles
Há muitos livros sobre o que sejam os poemas e, mais ainda, muitos poemas sobre o assunto.
Alguns Poemas, primeiro livro de Luiz D Salles, nos propõe, no entanto, uma outra questão logo de início: o que é um livro de poemas?; ou antes: o que é um livro?
A publicação, em parceria com o coletivo Dulcinéia Catadora, tem como capa, pintada à mão, um pedaço de papelão banal onde o miolo, de papel reciclado, é costurado com um barbante visível, branco, em quatro furos. Lindo.
Pelas páginas dois, três, um, quatro e até cinco poemas reunidos de uma vez e demarcados por simples asteriscos – que tivessem caído de uma mesma árvore, aleatoriamente, frutos poéticos.
Assim, as coisas no livro vão se repetindo. A simplicidade da estrutura física também está no léxico e no laconismo discursivo de Salles, em sua temática essencialista.
No poema-resumo, à sexta página, lemos:
“Gosto de engolir palavras
E inundar a alma de poesia”
E à página 24:
“A lÍngua tatuada de palavras
O céu da boca cheio de poesia”
Parece-nos, por vezes, que o mote do autor é antes de tudo esse: fazer poesia e, que esteja claro, muito bem feita.
Toda a obra parece, sem proselitismo, bradar os poderes do poema e a maravilha que é cria-los, que é, sobretudo, eles existirem – existência essa totalmente dependente do leitor, como queriam os existencialistas:
“Sem leitura livros nada significam”
Salles demonstra um apreço pungente por poemas curtos, por vezes haicais. Tanto que mesmo quando um de seus textos estende-se um pouco mais, seus versos, isoladamente, seguem minúsculos, contidos, formados até de uma única palavra:
“Sem classe social
Destino
Única clareza
Entre paredes frias &
Úmidas
O bolor cresce na
Língua
(…)”
Me agrada muito a despretensão dessa poética, num momento em que a poesia no Brasil, me parece, passa por uma importante renovação, com o advento de novos circuitos alternativos. Alguns Poemas não trata de pouco, mas de muito (inclusive politicamente falando, como no poema intitulado “VII”) com muito pouco, numa referência/inversão clara à linguagem comercial que rege esses dias.
Luiz é um poeta em construção e seu trabalho não alcança público amplo. Mas nisso reside a beleza de sua proposta, o questionamento do gosto, do modus operandi da POESIA. Quem ainda lê poesia? Quem ainda quer os vivos? Quem aposta nos erros? Quem quer compartilhar?
Eu quero.
Carlos André
Nov/2013